Economia

Shopee entra no mercado de remédios, mas iFood pode ser o maior beneficiado

ResumoA Shopee recebeu autorização da Anvisa para vender medicamentos, revogando a proibição de 2022. O BTG Pactual avalia que o iFood possui maior potencial de ganho nesse mercado, devido à vantagem em tráfego de usuários e infraestrutura de última milha. A decisão amplia a concorrência no varejo farmacêutico digital brasileiro.

A Anvisa autorizou a Shopee a comercializar medicamentos, revogando proibição de 2022. Mas o BTG Pactual aponta o iFood como o maior beneficiado, com vantagem em tráfego e última milha.

Otávio Bandeira
Otávio Bandeira Analista de mercado de capitais · 10 de agosto de 2026
Shopee entra no mercado de remédios, mas iFood pode ser o maior beneficiado

Shopee entra no mercado de remédios, mas iFood pode ser o maior beneficiado

Nesta segunda-feira (10), a Shopee deu um passo decisivo para entrar no mercado de medicamentos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a plataforma a comercializar remédios vendidos por farmácias e drogarias devidamente licenciadas. Desde março de 2022, a asiática convivia com uma proibição que impedia a venda e a propaganda de medicamentos no seu marketplace, agora revogada.

A autorização da Anvisa, embora específica para a Shopee, altera o ambiente regulatório para outras plataformas digitais. iFood, Rappi e Mercado Livre (MELI34) também são alcançados pela mudança. O movimento ocorre após a entrada da Lei nº 15.357, de março de 2026, que passou a permitir expressamente que farmácias e drogarias licenciadas contratem plataformas de comércio eletrônico para logística e entrega de medicamentos, desde que cumpridas as normas sanitárias.

O que muda com a autorização da Anvisa

As plataformas não podem comprar ou estocar medicamentos para venda. A autorização permite que atuem como intermediárias entre farmácias e compradores, no modelo 3P, já predominante nos marketplaces em outros segmentos. Na prática, a decisão elimina a incerteza regulatória, mais do que redefine quem está autorizado a vender.

O BTG Pactual avalia que o anúncio funciona como eliminação da incerteza que pairava sobre o modelo de intermediação. Não é uma mudança fundamental sobre quem pode vender medicamentos. As farmácias continuam sendo as detentoras das licenças e da responsabilidade sanitária.

Por que o iFood é a principal ameaça às farmácias

Considerando a elevada frequência de uso do aplicativo e a infraestrutura já estabelecida para entregas rápidas, o BTG vê o iFood como principal ameaça às redes de drogaria. A empresa já está recrutando ativamente farmácias, oferecendo integração de estoques, acesso à sua rede de entregas e ferramentas promocionais e de marketing.

Hoje, as farmácias podem contar com 400 mil entregadores parceiros. A plataforma desenvolve funcionalidades como descontos de programas de benefícios e integração com programas de fidelidade. A comissão é de 6% quando a entrega é feita pelo próprio estabelecimento e de 12% quando é utilizada a entrega do iFood.

"Em nossa visão, portanto, a principal vantagem competitiva do iFood não está no sortimento ou na expertise farmacêutica, mas na combinação de tráfego com conveniência na última milha: a plataforma consegue colocar uma vitrine de farmácia diante de consumidores que já estão acostumados a pedir produtos para entrega rápida", diz o BTG.

Onde o iFood ganha e onde perde

Para o banco, essa vantagem torna o iFood uma ameaça maior nas compras urgentes ou motivadas por necessidades específicas. Sobretudo de medicamentos isentos de prescrição (OTC) e produtos de higiene e cuidados pessoais (HPC). Na disputa pela totalidade dos gastos dos consumidores em farmácias, o impacto é menor.

O modelo do iFood continua dependente das farmácias parceiras para o sortimento, informações sobre estoque e qualidade do atendimento. Isso difere da entrega de alimentos: a compra de medicamentos exige molécula, dosagem, marca ou apresentação específicas. A disponibilidade de cada SKU e a variedade do sortimento são fatores consideravelmente mais relevantes.

"Redes independentes menores podem proporcionar ao iFood capilaridade geográfica, mas não necessariamente reproduzem a amplitude do sortimento, a profundidade dos estoques, a escala de compras, os dados sobre consumidores e o nível padronizado de serviço das maiores redes", pondera o relatório.

Grandes redes seguem com vantagem estrutural

O BTG Pactual acredita que a vantagem competitiva das grandes redes de farmácia, especialmente a RD Saúde (RADL3), vai além da proximidade física. O sucesso do comércio eletrônico farmacêutico depende da combinação de tráfego qualificado, profundidade de sortimento, disponibilidade de estoque e níveis de serviço. As grandes redes omnichannel possuem vantagens estruturais relevantes nesses quesitos.

Uma rede densa de lojas funciona como infraestrutura para aquisição de clientes, estoque distribuído e rede descentralizada de atendimento de pedidos. Isso permite combinar amplo sortimento com entrega rápida e retirada em loja. Plataformas de terceiros podem se tornar canais adicionais de geração de demanda para as redes tradicionais, desde que a relação econômica seja atraente e o controle sobre o relacionamento com o cliente seja administrado.

"Em nossa visão, portanto, o modelo vencedor provavelmente não será uma disputa entre plataformas digitais e farmácias físicas, mas uma batalha entre diferentes ecossistemas omnichannel", dizem os analistas do BTG.

O que esperar do setor farmacêutico digital

A entrada da Shopee no mercado de remédios marca uma nova fase para o comércio eletrônico farmacêutico. A concorrência entre plataformas e farmácias deve se intensificar, mas a leitura do BTG é que a disputa será entre ecossistemas, não entre canais. As grandes redes, com sua capilaridade e dados, tendem a se beneficiar da nova demanda gerada pelas plataformas.

Para o investidor, o movimento reforça a tese de que a RD Saúde (RADL3) está bem posicionada. A combinação de lojas físicas com canais digitais cria uma barreira de entrada difícil de replicar. O iFood, por sua vez, ganha um novo vetor de crescimento, mas dependente das farmácias parceiras. análise de ações de varejo

Perguntas Frequentes

A Shopee pode vender qualquer medicamento?

A autorização permite que a Shopee comercialize remédios vendidos por farmácias e drogarias licenciadas. A plataforma atua como intermediária, não pode comprar ou estocar medicamentos.

O que mudou com a Lei nº 15.357?

A lei, de março de 2026, passou a permitir expressamente que farmácias e drogarias licenciadas contratem plataformas de comércio eletrônico para logística e entrega de medicamentos, desde que cumpridas as normas sanitárias.

O iFood é uma ameaça real às farmácias?

O BTG Pactual vê o iFood como principal ameaça às redes de drogaria, especialmente em compras urgentes de OTC e HPC. A vantagem está no tráfego e na última milha, não no sortimento.

Quem são as plataformas beneficiadas pela decisão?

Além da Shopee, a mudança regulatória alcança iFood, Rappi e Mercado Livre (MELI34), que também poderão atuar como intermediárias na venda de medicamentos.

As grandes redes de farmácia perdem com a novidade?

Para o BTG, não necessariamente. As grandes redes omnichannel, como a RD Saúde (RADL3), têm vantagens estruturais em sortimento, estoque e serviço. As plataformas podem se tornar canais adicionais de demanda. como investir em ações de saúde

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