Economia

Serviços freiam no 2º tri e alerta para inflação resistente

ResumoO volume de serviços no Brasil estabilizou em junho e registrou alta de 0,4% no segundo trimestre de 2025. A receita nominal do setor avançou 8,6% em 12 meses, sinalizando pressão inflacionária persistente. O desempenho reforça a necessidade de manutenção da política monetária contracionista pelo Banco Central para conter a demanda aquecida.

Volume de serviços estabiliza em junho e cresce 0,4% no 2º tri, mas receita nominal avança 8,6% em 12 meses, alertando para inflação persistente e política monetária.

Bianca Solano
Bianca Solano Repórter de finanças pessoais · 12 de agosto de 2026
Serviços freiam no 2º tri e alerta para inflação resistente

Serviços freiam no 2º tri e ritmo de desaceleração alerta para inflação resistente

O volume do setor de serviços no Brasil ficou estável (0,0%) em junho na comparação com maio, em um cenário de desaceleração gradual da atividade econômica após o pico em outubro de 2025. Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (12), mostram que o ritmo perde força. O indicador está 19,9% acima do nível de fevereiro de 2020, período pré-pandemia, e as projeções apontavam recuo de -0,2%.

O que mudou no 2º trimestre?

Na análise trimestral, houve avanço de 0,4% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três primeiros meses do ano. O enfraquecimento da demanda acende debates sobre o futuro da inflação de serviços, componente considerado o mais persistente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Apesar da perda de tração, o desempenho de junho foi marginalmente melhor que o esperado. "No geral, surpresa positiva em junho. O índice do setor terciário ficou estável na comparação com maio, enquanto as expectativas apontavam para queda moderada no mês", afirma Rodolfo Margato, economista da XP.

Ele ressalta que, mesmo com a surpresa pontual, os números de meados do ano corroboram a visão de desaceleração gradual na atividade doméstica ao longo de 2026.

Queda disseminada escondida pela estabilidade

A estabilidade no índice geral esconde uma retração disseminada. Quatro das cinco grandes atividades pesquisadas registraram queda em junho. Os recuos mais expressivos foram nos serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,4%) e nos serviços prestados às famílias (-1,2%).

O resultado geral só não foi negativo graças ao setor de informação e comunicação, que cresceu 1,8%, impulsionado pela alta de dois dígitos nos serviços de tecnologia da informação.

O alerta inflacionário: receita versus volume

A principal preocupação dos analistas está na diferença entre o crescimento real e o avanço financeiro das empresas. A receita nominal do setor subiu 8,6% no acumulado de 12 meses, enquanto o volume cresceu apenas 2,0%, gerando uma distância de 6,6 pontos percentuais.

"Essa distância não corresponde diretamente à inflação do setor, porque os indicadores possuem composições e ponderações distintas, mas confirma que a expansão dos valores financeiros continua muito acima do crescimento da atividade real", analisa Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.

André Matos, CEO da MA7 Capital, reforça o alerta para a política monetária: o distanciamento entre receita e volume "é preço, não é atividade". Segundo ele, a resistência da inflação de serviços foi destacada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) como o principal risco de alta para os preços, já que a inflação não cede em um setor que opera próximo ao seu topo histórico.

Por que a inflação de serviços não cede?

A perda de força no consumo, gerada por fatores como crédito caro e famílias endividadas, tende a limitar o repasse de custos e contribuir para a desaceleração da inflação de serviços. No entanto, os especialistas convergem que esse efeito vai operar com defasagem.

A taxa de desemprego no baixo patamar de 5,4% mantém a renda e sustenta parte da demanda, fazendo com que os preços continuem rígidos. "A inflação de serviços ainda roda acima do índice cheio, o mercado de trabalho continua apertado e o Copom deixou claro que precisa enxergar uma desinflação mais disseminada antes de avançar", ressalta Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.

Letícia Moschioni, sócia da Finscale, avalia o mercado de trabalho como a variável decisiva para transformar a desaceleração da atividade em queda persistente da inflação. "Empresas reduzem contratações e investimentos antes de cortar salários ou promover demissões em escala relevante", explica.

A persistência da alta de preços fica evidente nos dados de julho, quando a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% para 0,55% e a energia elétrica subiu 3,09%, ilustrando a força dos componentes intensivos em trabalho e custos operacionais. O IPCA de julho registrou variação de 0,07% (Banco Central do Brasil), após 0,16% em junho.

Impacto no PIB e nas projeções

Os sinais mistos do setor terciário recalibram as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB). A XP prevê um esfriamento constante da economia, ainda que sustentando um avanço de 2% no acumulado de 2026.

"Para o terceiro e quarto trimestres deste ano, prevemos, por hora, altas de 0,3% e 0,1%, ou seja, uma tendência de desaceleração", projeta Margato. Para 2027, a XP mantém a visão de desaceleração mais acentuada, com PIB crescendo apenas 1%, uma visão de ressaca na economia brasileira.

Setores mais afetados: turismo e transporte

A retração nos serviços reflete o peso do aperto monetário sobre o orçamento das famílias. O turismo caiu 3,4% e o transporte de passageiros recuou 4,0%. Segundo Rodolfo Margato, o resultado fortemente negativo se explica porque o setor aéreo tem sido impactado por menor demanda e pressão nos custos, em meio ao choque global de oferta disparado nos preços do petróleo e derivados, com impacto no querosene de aviação.

A retração se disseminou por 16 das 27 unidades da federação. Para Caio Mazzuchelli, CEO da You Lead Outsourcing Comercial, isso "reduz a pressão sobre a capacidade produtiva e pode contribuir para a abertura gradual do hiato do produto, ajudando a conter a inflação nos próximos trimestres".

O que isso significa para a Selic?

Para os economistas, o esfriamento da economia corrobora a continuidade dos cortes da taxa Selic pelo Banco Central, mas o cenário externo exige passos cautelosos. Com o Federal Reserve mantendo os juros americanos em patamares restritivos (entre 3,50% e 3,75%), uma redução agressiva da taxa básica no Brasil reduziria o diferencial de juros, podendo pressionar o câmbio e devolver a inflação por meio de insumos importados e combustíveis.

A autoridade monetária deverá monitorar se o enfraquecimento dos serviços ditará o alívio nos salários e na inflação subjacente antes de alterar seu ritmo de flexibilização. como a queda da Selic afeta seus investimentos entenda a inflação de serviços no IPCA

Perguntas Frequentes

Por que a inflação de serviços é considerada persistente?

Porque o setor opera próximo ao seu topo histórico e o mercado de trabalho segue apertado, com desemprego em 5,4%, mantendo a renda e sustentando a demanda, o que impede queda rápida dos preços.

O que significa a distância entre receita e volume nos serviços?

A receita nominal subiu 8,6% em 12 meses, enquanto o volume cresceu 2,0%. Essa diferença de 6,6 pontos indica que a expansão financeira está muito acima da atividade real, o que sinaliza pressão de preços.

Como os serviços impactam a decisão do Copom sobre a Selic?

A desaceleração dos serviços corrobora cortes da Selic, mas o Copom aguarda desinflação mais disseminada. O cenário externo, com juros americanos entre 3,50% e 3,75%, exige cautela para não pressionar o câmbio.

Quais setores de serviços mais caíram em junho?

Serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,4%) e serviços prestados às famílias (-1,2%). Turismo caiu 3,4% e transporte de passageiros, 4,0%.

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