Economia

Ata do Copom alerta: BC reforça preocupação com desancoragem

ResumoO Copom, na ata da reunião de janeiro de 2025, reduziu a Selic a 14% ao ano, mas intensificou o alerta sobre a desancoragem das expectativas de inflação. O Banco Central avalia riscos assimétricos para o cenário fiscal e mantém postura restritiva, sinalizando que a política monetária permanecerá contracionista até que haja convergência das projeções para a meta.

Na ata da última reunião, o Copom reduziu a Selic a 14% ao ano, mas elevou o tom de alerta com a desancoragem das expectativas de inflação. O BC vê riscos assimétricos e mantém postura restritiva.

Caetano Vidal
Caetano Vidal Analista de criptoativos · 11 de agosto de 2026
Ata do Copom alerta: BC reforça preocupação com desancoragem

Ata do Copom acende alerta sobre desancoragem das expectativas de inflação

O Banco Central publicou, na manhã desta terça-feira (11), a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.) para 14% ao ano. O documento reforça o tom de cautela da autoridade monetária diante de expectativas de inflação desancoradas, mercado de trabalho aquecido e riscos fiscais e externos.

O que diz a ata do Copom sobre a inflação?

O Comitê destacou a desaceleração das leituras recentes do índice cheio e das medidas subjacentes. Ainda assim, a inflação acumulada em 12 meses permanece acima do limite superior da meta, enquanto as medidas de núcleo estão ligeiramente abaixo desse limite. Segundo o IBGE, o IPCA registrou variação de 0,16% em junho de 2026, após alta de 0,58% em maio e 0,67% em abril.

O ponto central da ata, porém, foi o reforço da preocupação com a desancoragem das expectativas. O Copom afirmou que, em um ambiente como o atual, é necessária uma restrição monetária maior e por mais tempo do que seria apropriado em condições de expectativas ancoradas. No documento, o comitê destacou que as expectativas de inflação permanecem acima da meta em todos os horizontes.

Por que o BC está preocupado com a desancoragem?

A desancoragem ocorre quando os agentes econômicos passam a projetar inflação acima da meta para os próximos anos. Segundo a ata, o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas. Ou seja, quanto mais tempo as expectativas ficarem fora do alvo, maior será o sacrifício de crescimento para trazer a inflação de volta.

O Copom afirmou que a perseverança na condução da política monetária é importante para reancorar as expectativas e reduzir o custo da desinflação em termos de atividade. A mensagem é clara: o BC prefere manter os juros restritivos por mais tempo a arriscar um processo de desinflação mais lento e custoso.

Contexto externo e riscos para a política monetária

Na ata, o comitê destacou que o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências na política monetária das economias avançadas. A equipe segue em tom cauteloso em relação à volatilidade de preços de ativos e commodities.

Esses fatores externos podem pressionar a inflação via câmbio e preços de insumos. O Copom afirmou que não pretende reagir aos efeitos primários dos choques de oferta, mas que poderá agir com firmeza caso surjam efeitos secundários sobre a inflação. Essa distinção é central para entender a estratégia do comitê.

Atividade econômica: moderação, mas resiliência

No ambiente doméstico, o Copom avaliou que a atividade econômica segue em trajetória de moderação, como já era esperado. Os indicadores apontam para uma desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre os componentes de oferta e demanda. Apesar disso, a economia ainda apresenta um nível considerado resiliente.

Para o Banco Central, o arrefecimento da demanda é importante para reequilibrar a relação entre oferta e demanda e contribuir para a convergência da inflação à meta. O problema é que esse arrefecimento ainda não é suficiente para aliviar as pressões sobre os preços, especialmente com o mercado de trabalho aquecido.

Mercado de trabalho segue aquecido, com sinais de perda de ritmo

No mercado de trabalho, o BC reconheceu que as condições permanecem aquecidas, embora alguns sinais apontem para uma perda de ritmo. A taxa de desemprego segue em níveis historicamente baixos, enquanto o crescimento da ocupação desacelerou. Os rendimentos médios também perderam força na margem, mas continuam crescendo em termos reais acima da produtividade do trabalho.

Esse cenário é relevante porque o mercado de trabalho aquecido sustenta a demanda e, por consequência, a inflação de serviços. O Copom afirmou que continuará acompanhando a evolução do mercado de trabalho e seus efeitos sobre os preços.

Riscos fiscais e o custo da desinflação

Na política fiscal, o Copom voltou a destacar os efeitos das contas públicas tanto no curto quanto no longo prazo. Segundo a ata, medidas fiscais influenciam a demanda agregada no curto prazo, enquanto a percepção sobre a sustentabilidade da dívida pode afetar o prêmio a termo da curva de juros.

O Comitê afirmou ainda que o enfraquecimento das reformas estruturais, a expansão do crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública podem elevar a taxa de juros neutra da economia e aumentar o custo da desinflação. Em outras palavras, quanto pior a percepção fiscal, maior tende a ser a taxa de juros necessária para controlar a inflação.

O que esperar dos próximos passos do Copom?

Apesar do corte de 0,25 ponto percentual realizado em agosto, a ata não sinaliza uma trajetória clara para as próximas reuniões. O Copom reforçou que continuará incorporando novas informações e acompanhando a evolução do cenário para determinar o grau adequado de restrição.

No cenário de referência, o Banco Central projeta inflação de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, as expectativas do mercado permanecem acima da meta, em 5,0% para 2026 e 4,2% para 2027.

O Copom afirmou que os efeitos de uma política contracionista sobre a atividade econômica estão se acumulando gradualmente. Apesar disso, avaliou que a inflação continua pressionada pela demanda e, por isso, é necessário se manter restritivo. Em um ambiente de incerteza elevada e com riscos assimétricos para a inflação, a magnitude do ciclo de flexibilização será calibrada conforme a evolução do cenário.

Análise: cautela justificada ou excesso de conservadorismo?

A leitura da ata sugere que o BC não está confortável em acelerar o ritmo de cortes. A combinação de expectativas desancoradas, mercado de trabalho resiliente, incertezas fiscais e riscos externos mantém a autoridade monetária em uma posição de cautela. A desaceleração da atividade e da inflação oferece algum espaço para a flexibilização, mas o comitê prefere calibrar os passos.

O ponto que mais chama atenção é a ênfase na desancoragem. Quando o BC afirma que é necessária restrição maior e por mais tempo, ele está sinalizando que o custo de errar para baixo é maior do que o custo de errar para cima. Essa assimetria é típica de ambientes em que a credibilidade da política monetária está em jogo.

Para quem acompanha a política monetária, a mensagem central é de paciência. O Copom não prometeu nada além de dados e cenário. A próxima reunião será decisiva para calibrar o ritmo de cortes, mas a ata deixa claro que o comitê não pretende se comprometer com um caminho pré-definido.

Perguntas Frequentes

O que é a desancoragem das expectativas de inflação?

É quando os agentes econômicos projetam inflação acima da meta para os próximos anos. Isso dificulta o trabalho do Banco Central, pois as expectativas influenciam a formação de preços e salários.

O Copom vai continuar cortando a Selic?

A ata não sinaliza uma trajetória clara. O comitê afirmou que a magnitude do ciclo de flexibilização será calibrada conforme a evolução do cenário, com riscos assimétricos para a inflação.

Qual é a projeção do BC para a inflação?

No cenário de referência, o Banco Central projeta inflação de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.

Por que o mercado de trabalho importa para a inflação?

Um mercado de trabalho aquecido sustenta a demanda e pressiona os preços, especialmente de serviços. O BC acompanha a evolução do emprego e dos rendimentos para calibrar a política monetária.

O que são os efeitos primários e secundários dos choques de oferta?

Efeitos primários são os impactos diretos sobre os preços. Efeitos secundários ocorrem quando o choque se propaga para outros preços e salários. O Copom afirmou que não pretende reagir aos primários, mas agirá com firmeza se houver efeitos secundários.

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